Bruna, de 18 anos, recém passou no vestibular de medicina, mas inexplicavelmente não está se sentindo feliz, apesar de ter se esforçado muito para isso, sente-se estranha e como se nada fizesse sentido. Leandro, de 22 anos, sempre foi um bom aluno, mas no último semestre de engenharia, não tem conseguido manter seu desempenho, queixa-se de dificuldade para se concentrar e raciocinar, sua namorada comenta que ele está mais vago e indeciso. Roberta de 30 anos, mãe de duas filhas, está preocupando seus familiares, porque ela parece fria com sua filha mais nova e passa a maior parte do tempo dormindo. Essas são histórias fictícias, mas poderia ser a sua história.A depressão é uma doença geralmente crônica e recorrente, caracterizada por sintomas afetivos como tristeza, desânimo, perda da capacidade de sentir prazer e sentimentos de culpa; por sintomas cognitivos, como dificuldade de manter a concentração, esquecimentos, lentificação do raciocínio, dificuldade para executar tarefas, pessimismo e viés interpretativo negativo; por sintomas neurovegetativas, como o sono, energia e apetite; e sintomas comportamentais como protelação das atividades, isolamento e choro fácil. Os pacientes deprimidos apresentam limitações de suas atividades e comprometimento do bem estar. Em 2010, o custo, nos EUA, por ausência no trabalho foi de 23 bilhões de dólares, e o custo por diminuição de rendimento no trabalho chegou a incríveis 78 bilhões de dólares (Greenberg PE, 2015). Em mulheres, a depressão pode ter impacto negativo no desenvolvimento dos filhos e na dinâmica familiar. Em um grande estudo, realizado por Pilowsky DJ et al, constatou que o tratamento da depressão maior em mães até a remissão foi associado à diminuição de sintomas psiquiátricos e melhora funcional nos filhos. Ainda assim, a depressão segue sendo subdiagnosticada, ou quando diagnosticada, os pacientes que estão sofrendo desta condição não recebem tratamentos suficientemente adequados e específicos.HISTÓRIANo Velho Testamento, a história do rei Saul descreve uma síndrome depressiva, assim como a história do suicídio de Ajax na Ilíada, de Homero. Por volta de 400 a.C., Hipócrates usou os termos mania e melancolia para descrever distúrbios mentais. Em torno de 30 d.C., o médico romano Celsus, em sua obra De re medicina, descreveu melancolia (do grego melan [“negra”] e chole [“bile”]) como uma depressão causada pela bile negra. O primeiro texto de língua inglesa inteiramente relacionado à depressão foi Anatomia da melancolia, de Robert Burton, publicado em 1621 (KAPLAN & SADOCK’S, 2014).EPIDEMIOLOGIA e CURSOAinda que a depressão tenha sido reconhecida até mesmo antes de cristo, conforme mencionado acima, é inegável que sua incidência esteja aumentando, para o psicólogo Jean Twenge o aumento da depressão nos últimos 50 anos decorre do aumento do individualismo e a uma perda da conectividade social. No século XIX, quase ninguém vivia sozinho, no entanto, hoje, cerca de 30% dos lares são formados por uma pessoa. Mudanças constantes no mundo da moda podem fazer você se sentir como se estivesse perdendo algo, um fluxo contínuo de más notícias na televisão pode escurecer sua visão da vida, e o declínio na fé pode lhe proporcionar uma postura cínica e o aumento das expectativas extremamente altas aumenta a vulnerabilidade a depressão e a ansiedade (VENÇA A DEPRESSÃO. LEAHY, 2015). Mais recentemente tivemos o efeito das mídias sociais, estas parecem afetar nossos índices de bem estar e aumentar sintomas depressivos, conforme verificado por um ensaio clínico feito na Dinamarca com 1095 pessoas, os pesquisadores observaram que as pessoas que ficaram sem se conectar no FACEBOOK sentiram-se mais feliz, menos sozinha, com menos dificuldade de concentração e mais útil. Tudo isso em apenas uma semana off-line, os sintomas de disforia causado pelas mídias sociais, provavelmente, decorram do efeito de comparação social, ao invés de focarmos no que precisamos, nós temos a infeliz tendência de focar no que as outras pessoas têm.A depressão é o transtorno psiquiátrico mais prevalente no Brasil, assim como na maioria dos países ocidental. Um estudo multicêntrico mostrou prevalência de 5,8% em um ano, e 12,6% ao longo da vida. A depressão pode começar em qualquer idade, no entanto, o mais comum é que o primeiro episódio depressivo ocorra entre 20 e 30 anos de idade.Seu curso é crônico e recorrente. O risco de recorrência aumenta com o número de episódios, é cerca de 50% para quem tem um episódio, sobe para 75% para quem teve dois episódios, após o terceiro episódio o risco de ter um novo episódio é de 90% (Caldieraro MAK, et al, 2013). Um episódio dura, em média, 16 a 20 semanas, e 12% dos pacientes tem um curso crônico sem remissão dos sintomas.Cerca de 10 a 20% dos pacientes com depressão tem o seu diagnóstico modificado para transtorno bipolar ao longo do tempo devido à presença de um episódio maníaco, o não reconhecimento deste pode levar equívocos no tratamento, agravamento da doença e risco aumentado de suicídio. O risco de transtorno bipolar é maior em pacientes com história familiar de transtorno bipolar e inicio da doença antes dos 25 anos e/ou em pacientes com sintomas atípicos de depressão como aumento da necessidade de sono, sonolência diurna, dificuldade de acordar pela manhã e lentificação psicomotora.ETIOLOGIAA depressão é uma doença multifatorial, causada pela soma ou interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e de estilo de vida. A hereditariedade tem uma importância de 30 a 40% no desencadeamento do primeiro episódio depressivo e de 66% nas pessoas que apresentam múltiplos episódios depressivos (Strakowski, 2016).O estresse ambiental parece ter um papel chave no processo de desencadeamento da doença, ainda que nosso corpo seja organizado com o propósito de enfrentar o estresse, sendo até mesmo necessária certa quantidade de “dose de estresse” sobre músculos, ossos e o cérebro para seu crescimento e funcionamento ideal; determinados tipos de estresse, especialmente no início da vida, como perda de um dos pais ou mais cuidados parentais, podem alterar nossos circuitos cerebrais deixando-nos vulneráveis a estressores no futuro. De acordo com esse modelo, pessoas com uma carga genética muito alta para depressão, desenvolvem doença com uma carga de estresse baixa, enquanto pessoas com uma carga genética baixa, só desenvolvem depressão diante de uma carga de estressa alta.Fatores psicológicos como a afetividade negativa (tendência a interpretar as situações como ameaçadoras, e frustrações menores de maneira catastrófica, associada a características de perfeccionismo e timidez), presença de um transtorno de ansiedade ou de personalidade estão associados a uma predisposição maior a depressão. Fatores sociais como isolamento, problemas financeiros e fatores no estilo de vida, como alimentação não saudável, consumo de álcool e cigarros, sedentarismo, também estão envolvidos no complexo processo de adoecimento.FISIOPATOLOGIA DA DEPRESSÃOA nível molecular parece que a depressão esta correlacionada como uma disfunção no sistema de neurotransmissão noradrenérgico, serotoninérgico e dopaminérgico que alteram a regulação gênica responsável pela síntese do fator neurotrófico derivado do cérebro que mantém a viabilidade dos neurônios cerebrais. EXAMES COMPLEMENTARES PARA O DIAGNÓSTICO DE DEPRESSÃOAtualmente, ainda não é possível diagnosticar a depressão ou o transtorno bipolar através de exames de imagem, nem quando se utiliza técnicas modernas de neuroimagem que avaliam a função cerebral como a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) ou a Tomografia por Emissão de Fótons (SPECT). Entretanto, alguns avanços têm sido realizados nessa área, com estudos de mapeamento do processamento de informação em vários circuitos dos transtornos de humor. Stahl, 2013, observa que na depressão pode haver redução da atividade do córtex pré-frontal dorsal, o que causaria os sintomas cognitivos da depressão (alteração da capacidade de concentração, da memória, do aprendizado e dificuldades de tomar decisões). Além disso, observou-se uma alteração na amígdala que, junto com o córtex pré-frontal ventromedial, é responsável pela regulação da expressão emocional de tristeza ou felicidade, parece que essa região do cérebro apresenta uma atividade aumentada quando a tristeza é induzida.TRATAMENTO:Se por um lado o tratamento dos transtornos de humor desenvolveu-se muito a partir de 1958, quando foi comprovado o componente biológico dos transtornos mentais e sintetizado o primeiro antidepressivo, por outro lado, o surgimento de novos antidepressivos acabou negligenciando os outros aspectos do transtorno, como a vulnerabilidade psicológica, os aspectos sociais e o estilo de vida.A formulação personalizada de cada caso é muito importante nas decisões de tratamento. Nesse sentido, é importante a avaliação de transtorno de humor na família, o estilo de vida da pessoa, a presença de hábitos não saudáveis, as relações familiares, sociais e ocupacionais. Deve-se avaliar o funcionamento cognitivo e o estilo cognitivo pré-mórbido, a capacidade de introspecção e identificar possíveis fatores desencadeantes e mantenedores do transtorno. Assim, será possível disponibilizar ao paciente um tratamento abrangente e que faça sentido. REFERÊNCIAS- American Psychiatric Association: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition. Arlington, VA, American Psychiatric Association, 2013.- Caldieraro MAK, et al. Depressão. Em: Programa de Atualização em Psiquiatria. Artmed/Panamericana Editora Ltda. PROPSIQ, Porto Alegre, Ciclo 3, Volume 1, 2013.- Cordioli A. PSICOFÁRMACOS CONSULTA RÁPIDA. 5° Edição – Porto Alegre: Artmed, 2015.- John F. Michelle B. Melvin G. Treatment Resistant Depression. A Roadmap for Effective Care. American Psychiatric Publishing, Iinc. Washington, DC. 2011.- Kapezinski F. Quevedo J. Izquierdo I. Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos. Terceira edição. Porto Alegre – RS: Artmed; 2.011.- Leahy RL. VENÇA A DEPRESSÃO, antes que ela vença você. Porto Alegre: Artmed, 2015.- Pilowsky DJ et al. Children of depressed mothers 1 year after de initiation of maternal treatment: findings from the STAR*D-Child Study. Am J Psychiatratry. 2008 Sep: 165(9): 1163-47.- Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders, Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, 2015, Vol. 49(12) 1087–1206.- Ruiz P, Sadock BJ, Sadock VA. Kaplan, Sadock's. Synopsis of Psychiatry. 11ª ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 2014.- Stahl S. STAHL’S ESSENTIAL PSYCHOPHARMACOLOGY. 4° Edition. Cambridge University Press, 2013.- Strakowski S. A Guide to Treating Unipolar and Bipolar Depression. Medscape, November 14, 2016. Disponível em http://www.medscape.com/viewarticle/871539?nlid=110661_425&src=WNL_mdplsfeat_161122_mscpedit_psyc&uac=225750AV&spon=12&impID=1239911&faf=1- The Facebook Experiment, The Happiness Research Institute, 2015. Disponível em http://www.happinessresearchinstitute.com/about-us/4579836744- Tolman A. Depressão em adultos. As mais recentes estratégias de avaliação e tratamento. 3ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2009.- Twenge MJ. Birth Cohort, Social Change, and Personality: The interplay of Dysphoria and Individualism in the 20th Century. Advances in Personality Science. Ed. Daniel Cervone and Walter Mischel. New York: Guildford, 2002. Leonardo Alovisi Martins, Médico Psiquiatra, CRM 27.614 – RS, Especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental.Passo Fundo – RS, dia 10 de dezembro de 2016.
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